Em sua 9º edição, a maior festa de retomada à cultura popular do Nordeste no município foi entremeada por homenagens a cidadãos ilustres da cidade, atrações “arretadas” e uma culinária regional de dar água na boca. Com a promoção da Secretaria Municipal de Cultura, a grande festa de resgate da cultura tradicional do Nordeste em São Caetano do Sul foi realizada entre 25 e 26 de novembro (no sábado e domingo), no Espaço de Lazer e Recreação José Agostinho Leal.

A celebração das tradições nordestinas e de sua gente ocorreu pela primeira vez no Nova Gerty, onde vive a maior parte dessa comunidade no município. Não por acaso, no parque há uma estátua do Padre Cícero ou “Padim Ciço”, para os conterrâneos.

Nas palavras do secretário de Cultura, João Manoel da Costa Neto: “Trazer a festa à imagem do Padre Cícero aqui no Parque Agostinho Leal foi uma ideia muito feliz. O parque é muito aconchegante para receber a parte gastronômica da festa e a rua em frente, com o palco, ficou muito bem acomodada com os shows, deixando a população à vontade para curtir”.

A Entoada Nordestina 2017 foi um marco graças ao retorno ao seu modelo original. Assim, no transcorrer da festa, a população pôde usufruir das apresentações de embolada, repente, forró pé-de-serra, xote, xaxado, baião, exposições de cordel, demonstrações da arte da xilogravura com a participação do público, além das iguarias típicas da cozinha nordestina.

“Esse modelo tem os sabores, as cores e os ritmos do nosso folclore, da nossa cultura nordestina”, ressaltou o paraibano Wilmar Soares, subsecretário de Comunicação da Prefeitura e presidente da Comissão Organizadora da Entoada.

Homenagens
O evento cultural deste ano especialmente dedicado ao Nordeste prestou homenagens, durante a cerimônia de abertura, aos cidadãos que são parte da história da cidade. Nove homenageados foram contemplados com a medalha de honra da Entoada Nordestina 2017.

“Com essa festa a gente homenageia, pelo menos, 40% da população de São Caetano do Sul: os nordestinos, seus filhos e netos. A cidade foi construída pela miscigenação e pela vinda de vários migrantes e imigrantes. A colônia nordestina tem tanto peso ou mais do que qualquer outra colônia imigrante porque ficou aqui e trouxe seus descendentes”, ressaltou o prefeito José Auricchio Júnior, em seu discurso de abertura.

“É óbvio que temos de homenagear muito mais do que essas nove personalidades aqui presentes. Procuramos, nessa retomada, trazer a representatividade: tem gente que é do comércio, que é professor, que é empresário, médico, enfim, em cada segmento buscamos um representante da comunidade nordestina”, acrescentou.

Com atrações das mais variadas, não ficaram de fora representantes da literatura regional nordestina, com as apresentações “Nas abas do meu cordel”, de Assis Coimbra e Paulo Dantas.

Já o poeta, escritor e músico Aderaldo Luciano fez o lançamento do livro “Romance do Touro Contracordel” (Adaga, 2017). Dentre outras atividades ligadas à região, o pesquisador da cultura nordestina foi coordenador das atividades da Roda de Cordel – leituras, projeto de leitura de cordéis em escolas e comunidades rurais brasileiras.

“Cordel não é folclore, é literatura”
Paraibano com naturalidade dupla, das cidades de Pilões e Areia, Aderaldo Luciano fez sua estreia na poesia com o Auto de Zé Limeira (Confraria do Vento, 2008). Em 2012, lançou “Apontamentos para uma História Crítica do Cordel Brasileiro”, pela Luzeiro.

Vindo de uma família de “poetas da oralidade”, conforme chama aqueles que têm o dom para o repente, Aderaldo considera o cordel antropofágico, repleto de ressignificações, ao passo que o repente é a “arte da cantoria” nordestina.

“Minha mãe me contava histórias de cordel de cabeça. Um dia, fui à feira e escutei um senhor cantando com um livrinho à mão. Era justamente a história que minha mãe contava, a história de João de Calais (lê-se “João de Calé”). Lembro que trabalhei o dia inteiro para poder comprar o livrinho.”

A história de João de Calais desenvolveu, em Aderaldo, ainda menino, a vontade de ler. Ele passou a ler gibis e a frequentar as bibliotecas da cidade. Quando entrou para o seminário, livros mais complexos, de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino, entraram para o seu repertório de leitura.

Entusiasta das manifestações culturais populares, é crítico da chamada “alta cultura”, segundo ele, burguesa e elitista: “a poesia é a expressão da alma, nasce tanto das camadas populares como da população mais rica, mais letrada. Poesia não precisa de gênero.”

Aderaldo dedica-se também à formação de professores, incentivando a inserção da literatura de cordel, legitimamente brasileira, nas escolas do país: “Cordel não é folclore, é literatura. É linguagem porque trata de temas universais, cotidianos”, explica.

Contrariando o senso comum, o poeta ressalta que o cordel não precisa, necessariamente, vir acompanhado das tradicionais ilustrações em xilogravura para que seja reconhecido como tal. De acordo com ele, o cordel é a forma poética, não importa a plataforma.

Para ficar na memória
No palco montado na rua, apresentações do Trio Virgulino e Peixelétrico sacudiram a noite do sábado. Com um repertório que relembrou grandes clássicos regionais, Enok Virgulino, na sanfona, Adelmo Nascimento, no triângulo, e Roberto Pinheiro, na zabumba, o Trio Virgulino conduziu o público aos passos do forró-pé-de-serra.

“Fico lisonjeado em participar de iniciativas como esta porque a gente sabe que a cultura nordestina é muito forte e, hoje em dia, infelizmente, o Brasil não está valorizando tanto o quanto deveria”, diz Enok Virgulino. E arremata: “Eu quero mais! Eu quero ano que vem estar aqui de novo”.

Já na noite do domingo, a Orquestra Sanfônica de São Paulo, o Trio Nordestino e a banda Circulandô de Fulô transformaram a rua Prestes Maia em um grande salão de baile. Não houve quem ficasse parado. Enquanto alguns casais davam show de destreza no forró, outros arriscavam passos amadores; idosos dançavam com fôlego de criança, bebês dançavam no colo dos pais. Foi, sobretudo, uma festa da família são-caetanense, que confirmou o versinho cantado pelo Trio Nordestino: “O maior forró, pelo que ouvi dizer, é em São Caetano, você pode crer”.

Todo o valor arrecadado com a festa vai ser revertido para o Fundo Municipal de Cultura.

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